Escrever é?

Acordo subitamente, acompanhado de meus pesadelos mais inquietadores. Tomo um tempo para respirar, me situar diante de meu quarto empoleirado, no qual quinquilharias dividem espaço com alguns objetos de relativo apreço. Miro os pássaros a partir da janela semiaberta e sou testemunha de um momento de beleza autêntica, algo que a natureza nos oferece sem esforço com suas cores, sons e texturas psicodélicas.

Em meio às tarefas ordinariamente definidas como essenciais, o que nos causa prazer genuíno? A sensação de que o dia será diferente, à despeito do caos ao qual estamos inseridos (se não fosse isso, o “agora” não seria chamado de vida, não é?). Uma maneira que tenho encontrado de lidar com esta ideia de caos, de bagunça que me acomete de minutos em minutos é transformar essas experiências pessoais em matéria bruta a ser lapidada, tal como o artista que, no auge de sua utopia, pretende construir sua obra-prima para a humanidade. Passo a passo. Momento-a-momento. Escrevendo. Palavra por palavra, numa sucessão de hesitações e avanços incessantes, formo sentidos (o que importa se são verdadeiros ou apenas fruto de minha imaginação? – sei que são reais porque é a minha representação do mundo), desfiguro pessoas e armo as maiores conspirações; saio triunfante quando acordo e volto ao meu estado de sonambulismo.

Grande parte desta magia que o campo da escrita impõe sobre mim se refere a sua capacidade de me seduzir, me tornar mero servo de seus desígnios, me tornar desamparado, sem pai nem mãe, sem beira nem eira quando ouço seu chamamento. De onde surgem forças que permitem me aliar a esta femme fatale? Talvez o seu convite para fazer parte de seu mundo seja a minha vocação, o meu ato de coragem, em que escalo montanhas e me equilibro num penhasco tal como numa corda bamba para descobrir o que me espera do outro lado da travessia. Mas o que desejo encontrar lá se não tenho condições de me livrar das miragens que meus olhos veem? É nessa suposição de que as coisas vão se situar diante de mim que tomo fôlego, processo mais uma ou duas frases com seus vícios de linguagem e a imagem se torna cada mais viva; não apenas em minha mente, mas todos os meus sentidos se comprometem a explorar este caminho cheio de buracos e obstáculos pelo caminho.

Escrever me permite criar – ou externalizar? – várias personas que estão vivas dentro de mim. Nesta batalha em que todos querem ser protagonistas, qual papel cabe a mim, reprodutor do texto e da palavra vivida incessantemente? Dar voz a cada uma destas personas é a minha tentativa de encontrar o equilíbrio em mim mesmo, o espelho que se reflete em mil imagens distintas, com suas formas bizarras, de tipos excêntricos. Indivíduos de todos os tempos, idades e aspirações convergem em cada ato, cada motivação perpetrada por canalhas de toda ordem, bon-vivants, heróis, vilões, homens que ganham voz a partir da palavra inventada. Dessa tentativa de extrair algo útil de tudo o que me faz inconformado, confuso, paranoico, perdido é que brota a possibilidade de respirar, sentir o ar invadindo meus pulmões. Perplexidade neste momento passageiro.

Esperança. Esperar. Espera. Spes. Escrever de alguma maneira é o antídoto perfeito para os momentos de confusão, de falta de discernimento entre a certeza e a dúvida que surge repentinamente. Escrever é respirar, comer, se alimentar de tudo que se encontra em abundância. Um passo de cada vez, letras em sequencia, 26 letras com seus milhares de possibilidades. Num ritmo cadenciado, numa dança dum vaivém sensual e hipnotizante. Taí a graça desse projeto estrambólico e sensacionalista. Então, escrever é.

(*) Texto em constante reescritura.

Retorno

Diz um velho adágio que “nada como o tempo para dar conta das coisas”. Não sei quem é o autor dessa sabedoria mundana nem posso afirmar se é esse mesmo o sentido da frase, mas isso não importa agora. O que importa é que nos últimos meses o blog foi deixado às moscas, o que culminou na suspensão das atividades por um período indeterminado. O que alguém em sã consciência faria nesse caso? Talvez um exercício de autorreflexão, com o objetivo de descobrir o que fazer em seguida (continuar com blog? encerrar de uma vez por todas a presença nesse mundo infame que é o ciberespaço?).

Contudo, como tudo que se refere à minha pessoa, não fiz esse prática de autoanálise nem meditei acomodado em posição de guru que não se alimenta há semanas (até me sinto mais pesado…): minha decisão é simplesmente retomar as atividades do blog, mantendo o espírito que sempre reinou por aqui (hummm, sempre não sei, mas que se constituiu como um norte) e experimentando algumas das ideias que tenho acalentado nos últimos meses, semanas, dias e até mesmo as ideias de ontem. Ou seja,  planejamento baseado na total falta de planejamento. O que sei é que quero escrever sobre aquilo que de alguma forma me deixa vivo, para aqueles que se identificam com o que tenho a dizer, seja através de “resenhas” de livros, breves anedotas ou crônicas livres, algo que pretendo trabalhar com mais força nesse retorno (dessa forma, o blog adotará um viés mais autoral, sem deixar de lado seu perfil mais conhecido).

Então, isso basta: escrever, apagar, escrever, comentar, xingar e ser xingado, fazer amigos de corpo e alma e me expressar. Se o resto se arruma com o tempo, que façamos à nossa maneira.

O que não existe mais, Krishna Monteiro

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*Livro oferecido pela assessoria do autor

Na coletânea de contos “O que não existe mais”, Krishna Monteiro usa como fio condutor das narrativas apresentadas as idas e vindas da memória enquanto elemento de identidade dos personagens. Nas histórias que compõem o livro, as lembranças forjadas na mente normalmente carregam consigo a noção de remorso, de culpa, em que a distância temporal não fosse capaz de solver dívidas de natureza simbólica. Mesmo que a memória às vezes seja nossa aliada, no sentido de criar, recontar uma história que seja verossímil ao nosso estado de espírito; os objetos que nos circundam, os símbolos que nos são familiares e que são parte da nossa própria existência, estão presentes para nos lembrar do estado de impotência em que estamos mergulhados. É nesse dilema entre a realidade tal como ela é e as realidades inventadas a cada momento que se situam os enredos dos sete contos aqui elencados.

No primeiro conto, “O que não existe mais”, esse embate entre lembrança e realidade se faz visível quando o personagem da história retorna para o lugar de sua infância, local este em que os hábitos perpetuados por seu pai ainda são evocados a todo instante, seja na maneira peculiar com que o pai ornamentava seu figurino, seja no comportamento errante quando trancado em seu escritório escrevendo sabe-se lá o quê. Cada tentativa empreendida pelo personagem no sentido de se desvencilhar desse passado que terminava por impregnar por todos os poros de seu corpo se constituía como tarefa difícil. Como exemplo dessa determinação, é recorrente o uso da noção de espelho. Quando o personagem se vê refletido naquela imagem, não é apenas a própria imagem de si que está ali representada, mas também a sub-representação de seu ente que já não está mais fisicamente presente. A todo instante em que o sujeito toma consciência de si mesmo (e portanto, do ser que foi gerado), essa separação se torna cada vez mais complicada, cabendo no final do conto o tom de catarse na busca de resolver o problema em questão.

Valendo-se não apenas de indivíduos dotados de uma racionalidade dita convencional, Krishna também utiliza como recurso para oferecer novas perspectivas sobre os descaminhos da memória ao dar voz a seres próximos do convívio do homem, como gatos e galos, por exemplo. Em “um âmbito cerrado como um sonho”, acompanhamos um dia comum na vida de um gato de estimação no conforto da casa de sua dona. Sabemos que o mar exerce certo fascínio para os dois personagens principais da história e que coisas estranhas ocorrem sob o ponto de vista do bichano, apesar de o mesmo mais preocupado em brincar com seu novelo de lã. É do recurso de simular o dito pelo não dito que a estrutura da narrativa nos é contada, deixando para as últimas cenas um desfecho inusitado. E é no conto “Monte Castelo” que as características presentes em todos os contos adquire forma melhor acabada, pois aqui notamos que o estilo do autor casa muito bem com a proposta temática apresentada. Em mais um texto em que lembranças de uma infância distante ainda influenciam os humores do protagonista, somos apresentados às viagens que o mesmo fez com sua mãe ao interior para visitar seus avós, em especial a ótima relação entre avô e neto, que perambulavam pelas ruas, criavam histórias de aventura para si próprios, em que cada experiência ali vivenciada tinha um representação simbólica. Em contraposição, mãe e filha pavimentavam uma relação cheia de atritos, o que acabou por separar o outrora menino da figura que representava a fuga da realidade. Porém, havia um lugar em que a comunicação era interrompida: um galpão em que o avô destinava talvez a escrever sua própria história particular, por isso a necessidade de um espaço que constituísse como refúgio para o jovem que presenciou os horrores da guerra, já que o mesmo foi membro da FEB e participou das batalhas na Itália. A cada nova visita aos lugares de sua infância, os objetos vão adquirindo novos significados; a criança indefesa deve dar lugar ao pré-adolescente corajoso: nestes ritos de passagem, a memória estabelece novos marcos de localização, de identificação. A partir desses pontos, o protagonista firma para si sua luta, seu embate diante do mundo e sua missão, projeto que se torna mais real quando o agora homem em seus quarenta e poucos anos, continua a contar a história que seu avô foi forçado a interromper abruptamente décadas antes. A escrita, “ofício” do protagonista, tem a função de contextualizar tudo aquilo que a memória busca em vão preservar: através da palavra ali grafada num papel carcomido, fatos vivenciados anteriormente podem ser expurgados, ou uma relação menos dolorosa pode ser estabelecida, servindo aí também como uma maneira de o autor da história a qual temos contato se libertar das amarras que carrega desde quando se percebeu um individuo com suas próprias vontades.

Em alguns momentos a escrita do autor seja um tanto rígida, o que dificulta a leitura de um ou outro conto em sua fluidez necessária para que a história transcorra de maneira natural; outro fator que me causou desconforto em parte dos contos está diretamente relacionado à proposta do livro: por se tratar em grande parte das memórias dos personagens, às vezes senti deslocado do texto e das ações ali descritas, pois notava certa dificuldade em me situar espacialmente no contexto do que estava sendo dito. Ainda assim, “O que não existe mais” é uma boa porta de entrada para o universo do autor que merece a atenção do público em geral.

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O que não existe mais
Krishna Monteiro
Tordesilhas
Páginas: 112

Dois experimentos literários: “Ilusão e Mentira”, de Godofredo de Oliveira Neto

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Os limites entre ficção e realidade na literatura constituem-se num objeto farto de investigação artística por parte dos autores contemporâneos. A instigante possibilidade de brincar com formas, imagens e palavras, de maneira a incitar curiosidade e dúvidas por parte dos leitores talvez represente um dos fascínios proporcionados por atividade tão nobre como a de contar histórias: provocar o riso, o descontentamento e a tomada de perspectivas distintas e enriquecedoras. A invenção da escrita não apenas revolucionou os rumos da humanidade, mas também transformou a maneira com que os indivíduos se relacionam entre si ao longo de uma geração e por décadas e séculos. Cada pessoa apreende para si uma interpretação diferente do texto carregado de sentido que a palavra oferece. E os escritores tomam para si essas referências para ressignificar sentidos de obras que se constituem como cânones da literatura de um país ou de uma época. “Ilusão e mentira”, de Godofredo Neto, é um representante dessa linha de atuação.

Antes de mais nada, é preciso dizer da proposta engendrada pela obra: a partir da obra consagrada do maior escritor brasileiro que nasceu por estas terras (segundo grande parte dos críticos literários que não conhecemos mas que existem aos montes por aí), Godofredo cria seu próprio entendimento das histórias que lhe apetecem. Estamos falando do conto “Ideias de um canário” e de “Dom Casmurro”, talvez o livro mais enigmático da carreira d’o Bruxo do Cosme Velho, que deram sustância para a criação dos contos “O galo Adamastor” e “Val e Lalinha”.

Já no ínicio d”O galo Adamastor”, somos alertados por um terceiro envolvido na história para o fato de que devemos estar atentos ao narrador-protagonista do conto, dado que, para seus concidadãos, o mesmo não goza das suas plenas faculdades mentais por contar a história do galo Adamastor, um causo nada comum como veremos adiante. Assim, nos é atirado desde o princípio a questão da autenticidade da narrativa: o narrador é passível de confiança? Podemos dar crédito às motivações empreendidas pelo artista e o que ele pretende atingir? Antes do começar a contar a história propriamente dita, o webdesigner M. Santos (no centro do “palco” ou do “picadeiro do circo”) cita uma passagem de Memórias Póstumas de Brás Cubas:

Era uma briga de galos. Vi os dous contendores, dous galos de esporão agudo, olho de fogo e bico afiado. Ambos agitavam as cristas em sangue; o peito de um e de outro estava desplumado e rubro; invadia-os o cansaço. Mas lutavam ainda assim, olhos fitos nos olhos, bico abaixo, bico acima, golpe deste, golpe daquele, vibrante e raivosos

E começa o espetáculo!

A ação se inicia em Florianopólis, quando M. Santos está envolvido com os preparativos de sua festa de aniversário; seu cozinheiro de longa data está impossibilitado de forrar a pança dos convidados do grande evento, o que ocasiona a ida do protagonista para Santo Antônio de Lisboa, distrito afastado da algazarra urbana da capital de Santa Catarina, pois lá ele encontraria um mestre-cuca de mão cheia. No momento de sua chegada à dita vila, em meio a uma festa na praça central, ele é agraciado com um recado que afirmava a boa sorte de nosso forasteiro, um acontecimento que mudaria seu destino. Após chegar à casa da viúva Isaurinha, M. Santos se depara com um ambiente em que reina a calmaria, a aparente tranquilidade. Nada de anormal, considerou. Porém, ao ir até o quintal, ele se depara com Adamastor, um galo ex-lutador de rinha.

Do encontro entre duas espécimes de constituições tão diferentes, se inicia o “confronto de ideias”: após lamentar da situação de prisão do galináceo, M. Santos é surpreendido com a réplica nada comum de Adamastor, que afirma sua condição de rei naquele ambiente, vivendo em seu palácio limpo e bem cuidado, no qual tem à disposição água e alimentos quando quiser. Passado o momento inicial de susto, os dois travam uma pequena conversa em que o mote da questão é a noção de liberdade (noção esta que permeia por toda a narrativa): M. Santos se surpreende com o fato de Adamastor ser dotado de mais inteligência do que ele. A visão arguta de mundo que o homem julgava possuir (soberano em comparação a um galo que passou a vida toda preso numa gaiola) é posta à prova nesse momento. A celeuma se torna mais intrigante quando Adamastor diz que liberdade é desfrutar de uma vida abundante enquanto vive dos prazeres que sua posição lhe oferece, e tudo o mais é “ilusão e mentira”.

Mais do que o fato de ter encontrado um galo falante, será que é essa noção de indivíduo pleno o fator que o deixa angustiado e entusiasmado de tornar aquele galo sua cobaia de experimentação? Sendo assim, M. Santos compra o galo e passa todo o seu tempo estudando temas relacionados à ave e se torna especialista, o tal entendido sobre o galo Adamastor. Assim, o homem se veria novamente superior ao animal. Porém, dada a natureza arredia de Adamastor, o galo, dono de si, acaba pregando peças em M. Santos. Diante de cada cenário, quando indagado por M. Santos sobre sua noção de liberdade, o galo responde de uma maneira diferente: para ele, a liberdade está vinculada aos sentidos apreendidos pelos indivíduos; ser livre é usar da percepção de mundo no presente momento a seu favor – o resto é “ilusão e mentira” -, enquanto M. Santos, preso a ideias preconcebidas em sua mente, não desfruta dessa aspiração humana. Porém, vale lembrar que M. Santos é um leitor ávido de Machado de Assis, e a história narrada por ele no “picadeiro” é impressionantemente idêntica ao texto escrito por Machado há mais de um século. Machado de Assis vidente ou profeta dos acontecimentos ocorridos com M. Santos? Ou a narrativa do autor do conto original está tão entranhada nas experiências do webdesigner a tal ponto que o mesmo assume como de sua posse os referenciais que norteiam a obra primeira?

Traçando um paralelo entre “criador” e “criatura” no primeiro texto, percebemos que, aceitas as devidas alterações de enredo aqui e acolá, está presente o respeito pela obra original. Admiração esta que não exime Godofredo de inserir a sua marca e provocar o leitor à sua maneira; a ressalva que tenho em relação à história em si está relaciona à adição de elementos de interfaces tecnológicas utilizadas atualmente: o uso desenfreado de tablets e smartphones, as pavorosas selfies e o uso das redes sociais (que criam um sem-número de histórias paralelas oriundas de uma história original) é um fator próprio do tempo em que vivemos, e nada mais normal do que incluir esse mal-necessário da contemporaneidade no referido conto, mas percebi que a retomada recorrente de tais elementos para inserir o leitor no contexto do andamento da narrativa me deu a sensação de breve artificialidade da prosa, tornando-a levemente deslocada da maneira como a história é contada.

No segundo conto, “Val e Lalinha”, somos apresentados à transcrição de uma série de gravações entre Laudelina, vulgo “Lalinha”, detenta numa unidade prisional, e uma psicóloga judicial. O mote do conto é o Amor e suas várias manifestações: de que maneira esse sentimento tão animalesco e impulsivo pode modificar trajetórias de vida a ponto de transformar nossa própria percepção sobre as coisas. A partir do relato textual percebemos que a psicóloga busca compreender as várias facetas da personagem objeto de avaliação de maneira bem natural. A despeito de suas obrigações profissionais e de seus deveres para com a justiça, a representante do sistema carcerário adota uma postura menos formal no que se refere ao relacionamento com sua interlocutora. Lalinha está na atual condição por ter se envolvida em vários crimes, desde os de menor potencial ofensivo (acusação de estelionato, falsidade ideológica), passando por abandono de incapaz, tráfico de drogas e até mesmo a acusação de assassinato. A vítima em questão seria Val (ou Valéria), moça conhecida sua da comunidade onde morava, e que tinha um relacionamento com Jonas, o verdadeiro amor de Lalinha. No decorrer do conto, percebemos a visão de mundo única que Laudelina possui, no qual o Amor, combustível para todas as coisas, poderia ser vivido a partir da posse exclusiva do objeto amado. Ser amado este transmutado em vários tipos de personalidade, que se adequariam às necessidades do ser que ama. Lalinha ama Jonas, um “bandido bom”, pois comete crimes menos graves, tais como assaltos à bancos e pequenos furtos. Jonas é carinhoso, atencioso e bom de cama. Do outro lado, temos Edu, atual parceiro de Lalinha, um bandido barra-pesada e chefe do tráfico da localidade. Sabendo do temperamento agressivo de Edu, Lalinha sabe dos riscos que lhe cercam caso rompa com seu atual parceiro, mas está decidida a largar tudo para ficar com Jonas, mesmo que para isso tenha que arcar com as consequências. Desse emaranhado de sentimentos, Valéria surge como a rival a ser derrotada, pois o amor praticado por Jonas não pode ser compartilhado com mais ninguém, a não ser com Laudelina. Do amor cego que não vislumbra obstáculos se fez o momento fatal em que a realidade se faz presente. Do amor cego que se existiu em outros relacionamentos, em circunstâncias nada favoráveis.

Nessa incursão da ouvinte pelas memórias de Lalinha, a existência de um caderno de anotações amplia as possibilidades de entendimento do que se passa pela mente dessa mulher tão esclarecida, amante dos bons livros e que se envolveu nessa trama assassina. O texto ali registrado sugere uma autora de sua própria história que cria para si um papel bem diferente daquele que é de conhecimento das autoridades competentes. As passagens mais “pesadas” de sua vida são apagadas do texto (e também da sua memória?); temos acesso à outra Lalinha, mais sensata, que usa da palavra escrita para expurgar alguns de seus demônios interiores. O texto é reflexo direto dos sentimentos que fazem parte da personagem-narradora, pois é latente o remorso que Lalinha demonstra por ter sido cruel com Valéria, a ponto de pedir o conforto de sua alma que vaga por aí. Contudo, ocorre uma reviravolta, quando a autora deseja mais uma vez tomar para si a posse de seu destino: ela afirma que não foi a executora do crime, que houve outro atirador que ceifou a vida de Valéria. Daí surge a confusão em descobrir quem foi o autor do crime, pois a fita com os áudios disponíveis acaba justamente nesse instante; cabe ao leitor decidir com as referências deixadas ao longo do texto qual será o fim de Lalinha – ela encontrará a expiação de seus pecados ou carregará o fardo da culpa até a eternidade? A alusão ao romance “Dom Casmurro” se faz presente neste trecho da obra, em que o autor deixa no ar o fim que mais faz sentido ao leitor.

Outro fator a se destacar em “Ilusão e mentira” é a maneira com que a mensagem pode ser alterada, independentemente do suporte em que esteja registrada. Seja na tecnologia digital ou no relato oral (meios de transmissão do primeiro conto) ou do texto escrito e do áudio registrado em fita (no caso de “Val e Lalinha”), a posse do autor sobre a mensagem objeto de criação parece limitada. A partir do instante em que o conteúdo saí de seus domínios, qualquer pessoa pode apreender aquela mensagem à seu bel-prazer, de acordo com a sua percepção de mundo e as experiências vivenciadas naquele momento. Seja da frase dita ou não-dita, da palavra omitida ou justaposta num pedaço de papel ou de uma mensagem com menos de 140 caracteres que fica vagando pela grande rede, o registro da informação em si não é garantia de salvaguarda para o autor da obra em questão, pois a cada acesso, a cada releitura, a cada compartilhamento, novas interpretações são possíveis, com desfechos que transitam entre o inusitado e o surpreendente. A autoria enquanto objeto de análise fria se perde quando centenas, milhares e milhões de vozes se interpõem à obra primeira. Desde os tempos de Homero e Moisés, passando pelos poetas medievalistas, indo de encontro a Machado de Assis, um mestre da arte da omissão e do duplo sentido, até atingir o leitor que aprecia o seu atual livro de cabeceira.

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Ilusão e Mentira
Godofredo de Oliveira Neto
Editora Batel
Páginas: 98

A família além de seus laços biológicos: “Crônica de um vendedor de sangue”, Yu Hua

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Das profundas mudanças sociais ocasionadas pela Revolução Comunista de 1949 ao processo de abertura econômica pós-Mao-Tsé-Tung nos anos 80: esse é o pano de fundo da trama narrada em “Crônica de um vendedor de sangue”, do chinês Yu Hua, lançado originalmente em 1995. Partindo do núcleo familiar engendrado por Xu Sanguan, operário da fábrica de seda de uma cidade do interior do país, acompanhamos os avanços e retrocessos de uma família que, no fim das contas, busca apenas sobreviver em meio à tanta penúria e abnegação. A história se inicia com a apresentação de Xu Sanguan, que nos idos de 1950, é um jovem ambicioso na casa dos 20 anos. Em visita ao seu avô na zona rural do distrito em que mora, tomamos conhecimento que o dito avô e seu quarto tio, dono de uma plantação de melancias, são os únicos parentes nos quais ainda mantêm algum contato. Na volta para a cidade, Xu Sanguan conhece dois vizinhos do seu tio, Ah Fang e Genlong, que carregam um fardo de mercadorias que serão oferecidas a um homem muito influente. Ao chegarem à cidade, ficamos sabendo que os dois homens estão ali para vender sangue, fonte de renda mais rápida e lucrativa para quem sobrevive a duras penas com a atividade do campo. Estimulado pelos rapazes presentes, Xu Sanguan realiza sua primeira venda de sangue, mas não sem antes seguir uma série de diretrizes recomendadas, tais como beber bastante água antes de uma sessão de coleta de sangue, assim como se alimentar com fígado de porco frito e dois copos de vinho de arroz amarelo quente. Entusiasmado pela experiência bem-sucedida, Xu Sanguan guarda parte do dinheiro obtido com a primeira venda, em parte porque suas necessidades biológicas no momento atinavam para a importância do matrimônio. Assim, surge em sua vida Xu Yulan, a “Rainha da Rosca Frita”, a moça mais bonita da cidade. Fazendo jus à lei de que “quem paga mais, leva”, Xu Sanguan se mostra como um homem capaz de prover a futura esposa e, assim, o casamento é providenciado. Porém, para tal, foi necessário tirar da jogada um concorrente, He Xiaoyong, e é justamente seu oponente que trará grande dor de cabeça para a família em tempos futuros.

A rotina de uma família simples é apresentada aos leitores. Nesse ínterim, o casal, já com três filhos, precisa administrar com sabedoria os parcos recursos que possuem, não sendo incomum a improvisação diante das adversidades que frequentemente surgem, seja um período de dificuldades na fábrica ou uma colheita malfadada no campo. O discurso machista dominante na sociedade de então amplifica conflitos em que as tradições e os valores morais estão presentes. Esse ponto pode ser exemplificado quando começam a surgir os rumores de que o filho mais velho de Xu Sanguan, Yile, não é seu filho de sangue de fato, já que ele guarda semelhança física com He Xiaoyong, que violentou Xu Yulan e a engravidou. Desnorteado com tal descoberta (ainda mais pelo fato de Xu Sanguan considerar Yile seu filho predileto e com o qual possui mais afinidade), o patriarca da família tem que lidar com os impropérios ditos pelos vizinhos e até mesmo por desconhecidos (afinal, toda a cidade sabe de sua “fama”), ao mesmo tempo em que teme ceder ao afeto que possui pelo filho para não perder o respeito que um chefe de família deve possuir perante a sociedade. Num primeiro momento, Xu Sanguan faz prevalecer os laços de sangue que descobriu não ter com o primogênito. Assim, renega a filiação com o seu filho e faz de tudo para que He Xiaoyong assuma a paternidade, recebendo a negativa (como de praxe) de seu rival. Como a maior vítima dessa celeuma, Yile se vê isolado sem saber como agir e várias vezes intenta em largar tudo e viver a sua vida. Porém, após Yile se envolver em uma briga, ferindo seriamente outro garoto, a família se vê forçada a reaver seus laços de sangue, que se estendem para laços afetivos. Considerado responsável por custear a estadia do garoto no hospital, Xu Sanguan, sem ter de onde angariar recursos que poderiam resultar no confisco de seus bens por parte do pai do vitimado, não vê outra alternativa a não ser vender sangue novamente. Assim, a cada novo desafio imposto pela família, Xu Sanguan põe em risco a sua própria saúde para que a família possa superar as intempéries que de tempos em tempos surgem, mesmo com a desaprovação de Xu Yulan, pois a venda de sangue não é vista com bons olhos pela população em geral, já que vender sangue é vender parte de si, um membro do próprio corpo. Vale destacar nesse momento vários trechos em que a prosa de Yu Hua é ao mesmo tempo bruta, em busca de um realismo que visa em instante algum amenizar o estado de miséria em que a família vive. É um estilo bruto, mas também delicado e até certo ponto poético, quando do momento em que a família se reúne na cama, após quase dois meses vivendo à base de mingau de arroz devido à escassez de alimentos, e, num exercício de imaginação, Xu Sanguan pede para que seus filhos saboreiem mentalmente o prato predileto de cada um. É desse trabalho narrativo em apresentar a realidade da família (e de muitas outras da China maoísta) que surge a grande força do livro, permitindo com que os personagens se comportem como humanos, aprendendo com os erros e com a própria fragilidade de nossa existência.

No decorrer da leitura também somos apresentados ao contexto sóciopolítico em que a família de Xu Sanguan está inserido: o avançar da corrente comunista revolucionária aos quatro cantos da China promoveu mudanças profundas na estrutura familiar. No livro destacam-se a crise da colheita de 1958, fato que causou a morte de milhões de pessoas de fome e epidemias, além da Revolução Cultural empreendida por Mao, com o propósito de eliminar quaisquer células opositoras ao regime de partido único, em que Xu Yulan e sua família também são vítimas. Apesar de tudo, os laços que unem a família se mostraram cada vez mais fortes à medida que a família passava por um novo período de escassez, em que o sangue não tem apenas papel biológico, mas também é o bem que permite com que a família estenda seus vínculos afetivos.

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Crônica de um vendedor de sangue
Yu Hua
Companhia das Letras
Tradução: Donaldson Garschagen
Páginas: 272

Das Coisas que Leio – Drops #2: Como se forma um bom leitor?

A pergunta que faz parte do título deste blog parece ser a grande “questão de 1 milhão de dólares”. Profissionais da área de marketing, editores, publicitários e senhorzinhos de terno e gravata tomando decisões que afetam toda uma cadeia de mercado: todos aqueles que de alguma maneira estão envolvidos com o mercado editorial movem montanhas no intuito de descobrir formas de captar a atenção do leitor, indivíduo este ávido por consumir uma nova história, se embebedar daquele personagem que causa fascinação e repulsa simultâneas ou apenas por passar uma tarde de domingo sentindo a brisa do vento a assobiar em seus ouvidos enquanto espreguiçado em uma rede. Independentemente da motivação mais elementar que guia a mim e a você nessa tarefa prazerosa e incompreensível para algumas pessoas, a estimulação de hábitos saudáveis de leitura corresponde ao ponto de partida de um processo que permite a formação de cidadãos mais conscientes da realidade em que vivem e dos meios de transformar essa mesma realidade. Um processo árduo e que deve ser posto em prática sem concessões, haja vista que é fato notório que a educação é um dos pilares de uma sociedade que amadurece como um menino que ainda está aprendendo a se virar sozinho e precisa de uma alimentação balanceada para ter mais disposição para simplesmente… viver. Brasil, a grande pátria educadora, em que os professores das esferas municipal, estadual e federal não são valorizados, em que é mais fácil encontrar alguém com o último lançamento tecnológico em mãos do que empunhando uma arma que serve de escudo e lançadeira, que pode pesar 200 ou 500 g, a depender do tipo de material empregado na confecção de seu objeto de resistência e da avidez da nobre moça em devorar com os olhos seu precioso. Brasil, em que simplesmente as pessoas não são estimuladas a pensar por conta própria, reproduzindo ipsis literis dogmas declamados aos sete cantos desde os tempos de nossa avó torta. Bem, este não é cerne da questão nesse momento.

A intenção aqui é ser rápido porém incisivo. Qual foi o primeiro livro que leu? Qual foi o primeiro objeto que caiu em suas mãos a conter um texto impresso (pode ter sido até mesmo alguma figura bisonha presente naquele brinquedinho que você destruiu com duas ou três marretadas na cabeceira da cama – de recompensa você recebeu o olhar desaprovador de seu pai, mas como você ainda é um bebê lindo e fofo, se sentiu forte e mandou o foda-se para todo mundo); as primeiras imagens e as associações com as palavras que seus pais, suas tias pegajosas e outras pessoas falavam sem nenhum tipo de pudor, pois você era apenas uma criança inocente. Depois que fomos à escola nos primeiros anos, semeamos o germe das intrigas fraternais com nossos amiguinhos de final de semana, daquela menininha estranha que a gente conheceu no parque num feriado ensolarado. Vem dessa época a descoberta das primeiras historinhas, daquelas que mamãe nos contava à beira da cama, e nós, enrolados em nosso cobertor admirando estupefatos como aquele projeto de mulher destinava mais alguns minutos (depois de já ter nos aturado grande parte do dia) a contar relatos sem pé nem cabeça, de épocas distantes, em que tudo era possível e tudo tinha um doce sabor como o do bolo de chocolate da tia que causava transtornos gravíssimos ao nosso trato intestinal. Adentramos à adolescência, o momento-chave da vida (dizem que a chegada à vida adulta que é o momento de decidir o que vai ser feito das várias vidas que forjamos para nós mesmos ao longo dessa existência malfadada), em que toda novidade nos leva da excitação incontrolável à mais profunda frustração, à tentativa de experimentar algo com cada vez mais intensidade, e os livros lá estão, disputando espaço com jogos, amigos de carne e osso (incluindo alguns namoricos de verão, de inverno e outros criados por nossa imaginação) e as aulas sem sentido que corroem nosso espírito egocêntrico. Nossa relação com os livros é meio complicada, pois a oferta é ampla. Ficamos receosos em deixar para trás um sem-número de histórias que podem transformar nosso dia, mas seguimos em frente com todo o ardor que essa prática nos oferece. Romances de meia-tigela, histórias de dragões e reinos encantados, a saga da princesa que busca recuperar o trono e o tempo perdido ou a história detetivesca do bon-vivant que salva a mocinha no último ato. O cardápio é bastante variado. Basta apenas o start inicial para que se desfrute de um universo de possibilidades, a última página longe de representar o fim do enredo, pois nós próprios podemos criar histórias paralelas, deturpar os sentidos oferecidos pelo autor, rir de sua cara ou querer se apoderar de seu cérebro para descobrir como um filho-da-mãe desses conseguiu expressar algo que estava entranhado em nossa garganta. Descobrir. Este talvez seja o verbo que possa localizar o bom leitor numa vastidão de livros disponíveis aos nossos olhos. Experimentar como a criança que não se satisfaz com respostas prontas, que está disposta a caminhar embalada pelas perguntas que não se dissolvem rapidamente. Seja aqui ou em qualquer outro lugar, tempo, ou espaço, descobrir tudo de que se serviu o homem para chegar ao momento presente é a missão mais elementar que existe para aquele indivíduo que encara como um desafio a ser superado o ato de avançar cada página à procura de sensações que o tornam tão humano como os personagens que habitam essas folhas. Pedaços de papel  que um dia estarão amarelos, mas que trazem consigo a lembrança de um momento eterno.

Um passeio pela literatura policial clássica

Sangue, mistérios aparentemente insolúveis, o investigador soberbo e dono de si, um tipo de narrativa que nos deixa vinculados ao livro de tal forma que não conseguimos largar dele: eis algumas das características do chamado “romance policial”: mesmo com as transformações próprias de um gênero que dialoga com o tempo em que se situa, ainda se pode ler nas entrelinhas muito do que foi preconizado por aquele que é considerado o “pai” do gênero, Edgar Allan Poe, de meados do século XIX. No intuito de deixar registrado um pouco do romance policial em nosso blog, falemos de alguns autores bastante conhecidos atualmente e que desde a época em que tiveram seus livros publicados gozaram de enorme popularidade e reconhecimento entre o público.

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Pietr, o letão, de Georges Simenon (Companhia das Letras)

Lançado em 1931, é o primeiro romance em que o comissário Maigret, personagem mais conhecido da obra de Simenon, dá as caras. Maigret não possui as características tão batidas de um membro da força policial que tem para si a responsabilidade para resolver crimes de natureza estranha e perigosa. Poucas informações sobre o personagem nos são repassadas durante a narrativa (Simenon nos conta da existência de uma esposa, porém, nem dela tomamos conhecimento de causa) e por vezes duvidamos da índole do protagonista pela tomada de ações que às vezes consideraríamos repugnantes. Mas, sim, ficamos sabendo que Maigret é aficcionado por charutos e gosta de fazer as refeições em seu próprio escritório na chefatura de polícia. Pietr, o letão fala da busca de um meliante que é acusado de aplicar golpes em vários centros financeiros da Europa. Em determinado momento, a polícia francesa fica sabendo que o vilão de nossa história estaria de passagem por Paris e que esta seria a hora ideal para pôr as mãos no bandido. Ao mesmo tempo, um assassinato misterioso põe num trem que chegava à Paris faz surgir indícios de que o Pietr pode ter algum envolvimento em mais este crime. E a partir daí Maigret terá que mexer seus botões e utilizar de suas artimanhas para desbaratar esse novelo que envolve hotéis luxuosos, teatros, pocilgas, bares entupidos de figuras marginais e deploráveis. Como estilo, podemos notar que a narrativa é concisa, apenas o essencial nos é apresentado; há pouco espaço para uma prosa floreada ou que utilize de artifícios dispensáveis. Até mesmo o uso de diálogos e as informações fornecidas pelos personagens são incompletos, inconclusos: é o jogo do “dito pelo não-dito”, do qual os próprios atores da história sabem que fazem parte do teatro das circunstâncias, que para alcançar seus objetivos no decorrer da história se faz necessário fingir, mascarar a verdade tal como ela é. Nós também ficamos sabendo dessa “farsa” da qual somos cúmplices, mas somos convidados a acompanhar a história até o final para descobrir quem vai pisar em falso primeiro.

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E não sobrou nenhum, de Agatha Christie (Globo Livros)

Por íncrivel que pareça, este foi meu primeiro contato com a mestra da literatura policial, dona de uma obra que, de tão extensa, se tornou uma tarefa ingrata escolher um livro para me proceder ao ritual de batismo. E não sobrou nenhum trata de uma história inusitada: dez pessoas são convidadas por um canastrão conhecido como Mr. Owen para passar um final de semana na Ilha do Soldado, um pedaço de terra em alto-mar em que não há vegetação existente e do qual emerge um casarão de estilo colonial no qual algumas surpresas nos são apresentadas. Mas por que especificamente estes dez personagens? Ficamos sabendo no decorrer da história (calma, isso aqui não é spoiler) que cada um dos turistas está envolvido em um crime do qual saíram impunes. Assim, o cicerone e dono da ilha tomaria para si a áurea de justiceiro e estabelece um suspense vertiginoso para saber quem sairá vivo dessa armadilha. Como o título já indica, não sobra testemunha alguma para registrar os acontecimentos para a posteridade, mas a leitura é válida no intuito de descobrir quem é este Mr. Owen e quais são as justificativas que o levaram a pôr em prática este prelúdio de Jogos Mortais. Uma característica bem interessante do livro é o jeitão de romance psicológico que o livro assume em grande parte da obra, pois o remorso se abate sobre cada um dos personagens quando a morte é uma possibilidade real a qualquer momento. Medo, histeria, ansiedade e desconfiança mútuas são algumas das emoções que dominam as pessoas em situações de desespero. Fato a ser salientado é que apesar de termos dez personagens que transitam a ser ou não protagonistas da história, o peso dado a cada um deles no decorrer da história é bem balanceado. Apesar de ser uma tarefa ingrata dar densidade psicológica a cada um deles (e aí o livro teria umas 500 páginas), as camadas fornecidas pela sra. Agatha são suficientes para dar sentido à ação dos personagens e torna crível algumas das decisões tomadas por cada um momentos cruciais da história.

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O cão dos Baskerville, de Arthur Conan Doyle (Zahar)

E por fim, Arthur Conan Doyle com mais uma história de Sherlock Holmes, John Watson e cia. ltda. Lançado sob a forma de folhetim de jornal entre 1890 e 1891, “O cão dos Baskerville” traz o nosso querido personagem em mais uma aventura, dessa vez com pitadas de literatura sobrenatural. Ler as histórias de Holmes é interessante no sentido de tentarmos acompanhar o raciocínio tão genioso do detetive que consegue resolver todos os mistérios, ainda mais quando o suspense predomina no decorrer da história. Tudo se inicia quando Henry Baskerville, dono de uma charneca nos confins da Inglaterra e detentor de posses consideráveis, morre em circunstâncias suspeitas. As primeiras notícias dão a entender que uma maldição secular ronda a família dos Baskervilles, algo relacionado à existência de uma figura demoníaca sob a forma de cão, que viveria nas paragens próximas ao rancho. Após hesitação inicial, Holmes assume o caso e providencia as primeiras investigações. O interessante é que a história é contada sob o ponto de vista do fiel escudeiro de Holmes, Watson. Ele é incumbido de passar um tempo na charneca e acompanhar o dia-a-dia do rancho e das pessoas que cuidam das instalações rurais. É através dos longos relatórios fornecidos pelo médico, além das pesquisas empreendidas à sua maneira que algumas pistas nos são apresentadas. Outra característica bem marcante da obra é a narrativa ágil, no qual é impossível não se deleitar com o estilo de escrita empregado por sir Arthur, além do clima galhofeiro entre Holmes e Watson, com o primeiro sempre a duvidar das capacidades dedutivas de seu amigo.